O CON*DOR
ANO II - NÚMERO ESPECIAL 3 - 07 DE MARÇO DE 1997
BOLETIM INFORMATIVO DA TURMA 57-BQ/ASPIRANTES 62.
EXTRA! EXTRA!CHEGOU A BQ A TURMA DE 1957
DAQUI A 40 ANOS ELES VÃO SE AUTODENOMINAR: UMA TURMA QUASE PERFEITA!
Embora todos os calouros desejem ser pilotos, e de preferência caçadores, alguns, pelo biótipo do gênero loiro-alto-olhos azuis, certamente serão destinados ao glorioso Serviço de Intendência; até porque, do jeito que a coisa vai, no futuro, lá pelo final dos noventa, vai ser uma loucura as contas da Força. Quem viver, verá.
Não se pode deixar de registrar o carinho com que os antigos alunos se dispõe a receber os novatos. Foram replantadas, no Jardim de Alá, muitas mudas da deliciosa babosa; exercitam-se os mais animaods veteranos na aplicação de calômetros, um pitoresco e afetuoso cumprimento, típico dos futuros aviadores, que se dá com os pés, e não com as mãos, certamente poupadas para as arriscadas manobras futuras, na condução de aeronaves.
Na cidade não se fala de outra coisa que não seja a chegada dessa tal "Turma Quase Perfeita!". O Cine Apollo mandou duplicar o seu contingente de gatos para que os futuros frequentadores não sejam importunados por roedores durante as sessões de fim de semana. A Gerente do Centro Cultural Casa Amarela mandou repintar a fachada de seu estabelecimento e contratou, no interior das Gerais, um reforço de intelectuais do sexo feminino, para que a Casa esteja à altura dos novos visitantes. No footing da Rua Quinze também é enorme o alvoroço; há quem diga que muitas senhoritas da nossa melhor Sociedade Barbacenense já se prontificaram a dar... à nova Turma o maior apoio. Especula-se até que algumas deixarão antigos amores por novas paixões, certas de que seus nomes, ou melhor, seus carinhosos apelidos, entrarão para a história da Turma, da Escola e da Força Aérea. Outras se propõem a ser musas inspiradoras das inúmeras canções que serão compostas, principalmente, por um violeiro que, já souberam, é um dos destaques dessa Turma.
O comando de tão promissor grupamento foi entregue a um dos mais jovens e brilhantes capitães aviadores da Força, que dedicará, nos próximos dois anos, cada instante da sua vida à construção e ao aperfeiçoamento dos melhores profissionais que o país vai conhecer. O Capitão não medirá esforços, nem punições e, certamente, conseguirá fazer de todos eles verdadeiros Homens. Se não todos, quase todos. E daqui a quarenta anos eles subirão novamente a serra quando, ainda meninos, embora bem rodados, virão agradecer pelo Grande Encontro. Se não todos, quase todos.
Sorria, Barbacena, eles chegaram!
57-15 Neves
Quando saí de minha cidade, Carolina, no Maranhão, fui para São Paulo à procura do meu espaço. Assentei praça no EB e, já como Cabo, em 1956 passei no concurso para a EPCAr. Cheguei em BQ cheio de esperanças e já encontrei o veteranal espumando boçalidade, louco de desejo de aplicar em nós, desprotegidos calouros, aquele arsenal de trotes, quase todos violentos, que suas cabecinhas ocas inventavam. Os três primeiros meses foram difíceis, no entanto o roubo do gabarito, que desligou um bom número de veteranos, esfriou o ânimo dos que restaram da turma de 55.
No final do ano eu, e vários colegas, não fomos aprovados nos exames e, como "repes", passamos a pertencer a essa maravilhosa Turma de 57. Os meus colegas da antiga turma de 56, agora como veteranos, estavam com a mesma sede de trotes que seus antecessores, ávidos para descarregar nos calouros seus velhos recalques. Percebi que por aí passava uma oportunidade de aumentar meus vencimentos, usando os mesmos métodos dos mascates que conhecera lá em Carolina.
Nos primeiros meses do ano, a entrada de um "bicho" no Cassino, dominado pelos veteranos, era um suicídio. Então passei a comprar cigarros, doces e chocolates na cantina do Cassino, revendendo para os novos colegas de 57. Lembro-me bem de que, só na fila do bicharal para receber uniforme, em pouco tempo eu vendi, por bom preço, duzentos pães de mel e não sei quantos maços de cigarros. Naquele inesquecível ano de 1957 descobri o meu destino de comerciante.
Logo estendi também minhas atividades junto aos veteranos, pois sempre havia alguém querendo vender alguma coisa e alguém disposto a comprar. Assim eu comprava calças, camisas, gravatas e até paletós do pessoal oriundo das grandes capitais e revendia, com bom lucro, para a turma vinda do interior. Era um maná.
Certo dia, creio que por maldade, na hora de sairmos do alojamento (quase sempre correndo) para as salas de aula, alguém colocou um par de botinas velhas em frente ao meu armário, para que fossem encontradas pelo severo Capitão Comandante da 3ª Esquadrilha, durante a minuciosa revista que o mesmo fazia diariamente. Certamente eu seria punido. Acontece que meu anjo-da-guarda "mandou-me" voltar ao armário à procura de uma caneta e, lá chegando, deparei-me com o traiçoeiro par de botinas. Imediatamente guardei o par de borzeguins no armário e, mais tarde, com calma, os vendi por um bom dinheiro a um daqueles funcionários que cuidavam da limpeza.
A minha atividade comercial na EPCAr não colheu só lucros, tive também dissabores. Certo dia o Capitão Dário me apanhou vendendo cigarros e chamou-me ao seu gabinete para dar explicações. Só não fui preso porque ou meus argumentos foram fortes ou porque naquele dia o Capitão estava de coração aberto.
Acabei sendo desligado da Escola. Fiquei triste, mas meu destino era outro. Um colega, à guiza de conforto, me disse: "Noleto, isso aqui não é para você. A sua vida é comprar e vender; se continuar na aviação vai acabar vendendo os aviões da FAB". Hoje, olhando a minha boiada, percorrendo minhas fazendas, visitando meus postos de gasolina, fiscalizando minha rede de supermercados aqui em Brasília, fico pensando em como tudo começou - vendendo pão de mel na fila da bicharada dessa Turma Quase Perfeita", a minha boa Turma de 57.
Ah, BQ, Deus lhe pague!!!.
56-148 Noleto
De Barbacena:
"Com um grande abraço, venho agradecer a remessa dos exemplares do URUBU e de seu sucessor democrático, O CON*DOR. Felicito-o, ao mesmo tempo, e a seus colegas da Turma de 57, pela fórmula feliz que encontraram para conservar a união e o companheirismo, nascidos de sua convivência em nossa Barbacena, por intermédio daquele divertido (e nostálgico) Boletim. Muito afetuosamente, o
Fernando Victor"
A comemoração da festa BQ-57 é a materialização de uma expressão frequntemente utilizada pelo inesquecível Liberato Bittencourt, modelo exemplar de homem, companheiro mais experiente e, sobretudo, Professor: "Filho, passei por aí e não esqueci!" Somente os homens de alma entendem e se sensibilizam com o passado. Durante quatro décadas jamais esquecemos, por isso somos fortes, somos unidos, somos irmãos. Soubemos juntar-nos aos bons e ao bem, sem renegar os maus e seus males. Aprendemos a conviver com os que ficaram, sem deixar de homenagear os que partiram, com a f'r de reencontrá-los mais tarde. Voltaremos a Barbacena estendendo as nossas mãos, num gesto de gratidão, aos que partilharam conosco desde o início de nossa caminhada.
Em 7 de março os espelhos ficarão embaçados: não refletirão cabelos grisalhos, rugas, calvícies, nem pomposas barrigas. Nossos olhos mostrarão que ainda temos o brilho de toda a juventude e a vibração de quem começa. Não será apenas uma confraternização, ou simplesmente uma comemoração; será muito mais do que se pensa ou do que se imagina. Registra-se um fato raro: < B>um novo renascimento".
Nasceram em abril e merecem nossos sinceros PARABÉNS!
LABOR OMNIA VINCIT IMPROBUS! O trabalho vence todos os obstáculos!
Percebo uma voz ao longe concordando:
- "Professor, recite um dos seus poemas!..."
O bom mineiro, no alto da sua dignidade, serriu e deu-nos uma lição inesquecível:
- "Por certo conhecem Manoel Maria Barbosa du Bocage (Todos fizeram cara de que conheciam). Talvez não saibam que ele, aderindo ao Arcadismo, tomou o nome de Elmano Sandino. Um dia, diante do espelho, poetou assim:"
Elmano, lê-me teus versos.
Quem ouviu jamais esqueceu. Foi ele quem nos falou de um poeta mineiro, pouco divulgado, mas tão bom quanto Drummond de Andrade; chamava-se Emílio Moura.
Viver não dói. O que dói
- "Quem de vocês é do Rio de Janeiro? Como deve ser bom morar em Copacabana!" E o Quincas andava sobre o estrado prá lá e prá cá, absorto, com a mão no bolso, viajando na fantasia da praia mais bonita do mundo! Que maldade, Minas não ter mar...
Viver não dói. O que dói
Vinte e três de outubro de 1958, Dia do Aviador, encerramento da Semana da Asa; cine Pálace lotado. Estávamos todos lá para assistir mais uma palestra sobre o Pai da Aviação. Mas, essa, sabíamos, seria diferente porque proferida pelo Fernando Victor. Pela irreverência, pela cultura, pela eloquência, pelo discurso ágil e, principalmente porque era jovem, - o mais jovem do corpo doscente - FV era o nosso orador preferido. E ainda é! Depois do Comandante, do Subcomandante e do Diretor-de-Ensino, deram-lhe a palavra. Ele começou arrasando:
- "Seria de boa técnica oratória começar esta palestra perguntando: Quem foi Santos-Dumont? No entanto, corro o risco de ouvir dessa platéia centenas de respostas melhores do qu as que eu tenho aqui, nas minhas anotações..."
E nos desenhou um Santos-Dumont vanguardeiro, elegante e vaidoso, no seu chapéu desabado, um Santos-Dumont parisienses, homem do mundo e à frente de seu tempo. E nós que nos ufanávamos, pensando em um Santos-Dumont brasileirinho, verde-amarelo, que só saiu de Cabangu porque Minas, além de não ter mar, também não tem Torre Eiffel...
Viver não dói. O que dói
Para que essas recordações? Só para lhes dizer obrigado? Só para demonstrar uma gratidão meio piegas dos seus ex-alunos para com seus bondosos e cultos ex-professores? Só para armar um pretexto e mostrar aos mestres aqui presentes nossos lauréis de estudo? Que somos todos vencedores; que esta Turma, que se autodenominou "Quase Perfeita!", colheu na história do Ensino e da Instrução da Força Aérea galardões e honrarias que nenhuma outra até hoje conseguiu igualar? Imaginem se fosse uma "Turma perfeita!" Na verdade, viemos aqui para nos reencontrarmos, cada um consigo mesmo e com aquele pedaço de nós, que ficou na lembrança do outro. Essa lembrança invade as salas de aula, se esconde naquelas carteirinhas tipo baú (que nunca mais vimos em lugar algum), esbarra apressada pelos corredores do pavilhão de ensino, e se contorce ansiosa nas provas dissertativas e longas, de resultados tão justos quanto rigorosos. Aos nossos mestres não nos cabe só dizer obrigado. A lucidez nos manda pedir perdão por fazermos parte de uma geração que permitiu a degradação do magistério, colocando o professor à margem do processo de construção do Brasil, que se quer moderno, determinando o que todos sabemos: o país exporta cérebros e importa tecnologia, o que nos tona cada vez mais dependentes do chamado primeiro mundo e distantes dele. Ainda que Nova Iorque fique ali na esquina...
Viver não dói. O que dói,
Voltamos para lhes dizer, com sinceridade, todas as coisas e o quanto foram importantes para que chegássemos aonde chegamos. Vocês, e o Poeta, nos ensinaram que Viver não dói, o que dói...
É a distância infinita
Oração escrita e lida pelo Aluno 57-15, Neves, na homenagem aos nossos Mestres no dia 7 de março de 1997 em Barbacena.
Às vezes, a vida traz-nos surpresas muito agradáveis. Desta feita brindou-nos, mais por sorte do que por merecimento, com a honrosa missão de saudá-lo, em nome da Turma de 1957, como nosso grande homenageado, nas comemorações dos quarenta anos de ingresso na EPCAr. Apesar da responsabilidade que implica, a tarefa é fácil, já que, não somente sentimos profundamente o carinho, a estima e a admiração que nos cabe expressar neste momento, como temos a convicção de compartilhá-los com todos os companheiros aqui representados.
Tenha certeza, Capitão Dário, que lhe somos devedores de boa parte do sucesso que cada um de nós logrou nesses quarenta anos. Quando chegamos a Barbacena, crianças ainda, tivemos a felicidade de ter, como nosso primeiro Comandante, um líder que era, também, um exemplo para tudo o que precisávamos. Nosso Comandante era um atleta, era disciplinado, pontual, uniformizáva-se com extremo capricho, era "caçador" e excelente piloto que nos encantava com espetaculares "rasantes" que, sabemos hoje, jamais ultrapassaram os limites da segurança. Em suma, simbolizava tudo o que gostaríamos de fazer, ou de ser, mas não conseguíamos ou, então, víamos muito distante.
Mas nosso Comandante não era uma máquina perfeita, fria infalível, inacessível. Logo percebemos que, por trás daquele "vibrador" e "caxias", havia uma pessoa humana, compreensiva e de grande sensibilidade. Para comprovar isso, vamos recordar um dos momentos mais comoventes vividos por nossa Turma, em Barbacena. Estávamos no auditório da Escola, durante a despedida da Turma, em 1958, quando o senhor interrompeu seu discurso e, com voz embargada pela emoção, afirmou:
- "Há dois anos convivo com vocês. Nesse período dediquei-me mais a vocês do que a meu próprio filho!"
Ali estava a mais absoluta verdade! E, a partir daquele momento, todos nós nos sentimos, também, seus filhos, apesar da pequena diferença de idade.
A dedicação, o esforço e o sacrifício não foram em vão, Capitão Dário. O exemplo de retidão de caráter, de dedicação ao serviço e amor à Força Aérea Brasileira, da mesma forma que a vibração ilimitada, foram incorporadas às nossas personalidades em formação, tornando-se a melhor herança que nos poderia deixar. Aquela era a hora da despedida. Mas a separação seria apenas física. O senhor continuou sempre presente em nossa lembrança como aquela pessoa que, no momento em que nós mais precisávamos, teve a paciência de nos ouvir e aconselhar com sua experiência, de nos fortalecer e unir com a sua liderança, de nos confortar e tranquilizar com a sua compreensão.
É esse , Capitão Dário, o motivo da homenagem que hoje lhes prestamos. Mas, como o senhor bem sabe, nem todos os seus comandados de 1957 e 1958 seguiram a carreira militar. Desse modo, para que esta nossa manifestação de apreço seja completa, nós, que somos militar, gostaríamos de compartilhar este momento de intensa emoção com um companheiro civil. Por isso chamamos o Aluno 57-78, Horta, que lhe fará entrega de um quadro da nossa Escola, de autoria do consagrado pintos Sansão Pereira, para simblizar todo o nosso reconhecimento pelo que o senhor representou e representa para todos nós.
Oração escrita e lida pelo Aluno 57-04, Gomes, na homenagem aos nosso Comandante de Esquadrilha, Capitão Joaquim Dário d'Oliveira, no dia 7 de março de 1997 em Barbacena.
O MEU CAMINHO
CORRESPONDÊNCIA
PASSEI POR AÍ
ANIVERSARIANTES
07 - João Carlos (57-40)
09 - Horta (57-78), Longuiño (Cad 60-115) e Conte (57-142)
10 - Granha (57-75)
11 - Martins França (57-158)
12 - Schmitt (59-159)
15 - Bernardini (57-159)
18 - Telmo (57-31)
19 - Silveira (57-05)
20 - Pereira (57-104)
22 - Nunes (57-13)
AOS MESTRES DA TURMA 57-BQ
- "Disse-o bem senhor; disse-o bem!"
O terno impecável, de casimira marrom; gravata combinando e o colarinho branco, imaculado; o tom de voz seguro, sereno, senhorial; a linguagem culta e policiada; nunca se ouviu falar do Professor Jorge Alves Possa uma palavra vulgar. De uma feita o soubemos poeta bissexto, mas dos bons, e certo dia um de nossos humoristas de plantão pediu, com o ar zombeteiro de quem quer fazer o tempo de aula escoar:
Outra sorte me dê Deus!
Por quê?
Porque queres ler-me os teus!
É a vida que não se vive.
Tanto mais bela, sonhada,
Quanto mais triste, perdida.
É o tempo, essa força onírica
Em que se criam os mitos
Que o próprio tempo devora.
É essa estranha lucidez,
Misto de fome e de sede
Com que tudo devoramos.
Ferindo, ferindo, ferindo,
É a distância infinita
Entre a vida que se pensa
E o pensamento vivido.
Entre a vida que se pensa
E o pensamento vivido.
Que tudo mais é perdido.
SAUDAÇÃO AO CAPITÃO DÁRIO
Você está lendo a edição especial de O CON*DOR de março de 1997.
