O CON*DOR

ANO II - NÚMERO 2 - FEV/97


BOLETIM INFORMATIVO DA TURMA 57-BQ/ASPIRANTES 62


E O ESCLEROSADO SOU SÓ EU?

Ah, lembranças! Os anos passam e as coisas que aconteceram estão nos confins do nosso cérebro. Não adianta "Ginko Biloba" que a memória não melhora. E olha Bené que tentei me lembrar, até pelo sabor, mas não consigo recordar o gosto do selo, da cola, ou mesmo do envelope. Mas uma coisa me lembro muito bem: da Dona Raimonda e do seu carinho; daquela bela macarronada e da sua eterna preocupação com o meu amigo Bené e com todos os outros "bichos" daquele ano dourado de 1957! Lembro também do jeito daquela "mamma", que nos confortava com suas palavras de ânimo e sempre carinhosas, nos momentos difíceis daqueles dias iniciais do nosso desmame. Ah!!! Meus quinze anos! Onde os sonhos ainda vagavam sem rumo naquela cabeça de vento, pois, até aquele início de ano o mundo ainda era cor de rosa. O "leite vinha da garrafa do leiteiro" e as "sardinhas vinham da lata" (como dizia o Fangula e o Manoel Carlos, se referindo às minhas origens)... Era a iniciação à realidade da vida. A compreensão das mudanças ainda era um pesadelo, pois, chegava a hora de tomarmos as nossas próprias decisões de vida, decisões essas oriundas de um sonho comum de nos tornarmos "aviadores". Eram momentos em que a conjuntura da época em muito influenciou na formação do nosso caráter. Nisso entra, dentre outras figuras também importantes surgidas então, a pessoa do "Capitão Dário" e da "Mãe do Bené". Cada um com uma parcela na difícil tarefa de nos transformarem em "gente". O nosso "Comandante" nos mostrando o rígido caminho da disciplina, da responsabilidade, do ideal, do perfeccionismo e da honestidade; e a "Dona Raimonda", com sua sabedoria de mãe, nos estimulava a enfrentarmos essas bruscas mudanças através da sua presença protetora, dos seus conselhos e do conforto às nossas barrigas. Em determinados momentos, quando tudo a nossa volta "parecia" desmoronar e os nossos sonhos se esvaírem como fumaça, durante essas horas em que éramos "uns pseudos adultos e candidatos a Cadetes", precisávamos desses estímulos. Ah Bené, como gostaria de ter que "comer" aquela carta se isso pudesse retornar àquela época de novo... Comeria até duas! E com que prazer... Mas como esse retorno é impossível, temos que cair na realidade e a realidade é que o que passou, passou. O importante é que foi muito bom e essas recordações, mesmo esclerosadas, são hoje um alimento da nossa vida. Podemos olhar para o passado e dizer: Vivemos!... E não, passamos!... E se recordar é viver, ainda estamos vivendo... Caro Bené, aceite o meu abraço e dê um beijo na muito querida Dona Raimonda em meu nome. Obrigado pela recordação mas continuo esquecido... com relação àquela "apetitosa" carta.

57-86, Luzardo

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COMO ME FIZ INTENDENTE

No dia do meu solo foram sorteados para pilotar o mesmo avião: eu, o Lyrio e o Mossry. Nesse momento, decisivo para quem sonha ser piloto, todos ficamos muito ansiosos e quando o instrutor nos libera para voar sozinhos, queremos que seja logo, enquanto estamos com o corpo quente. Veio o sorteio e eu fiquei por último; só voaria na parte da tarde. Esfriei. Mais que isso, gelei. Logo eu, que nunca escondi o medo de voar, ia ter que solar frio. Desolado fui almoçar. No rancho, o Tomé, todo molhado do banho da vitória, feliz da vida e me sabendo também liberado para solar, deu-me uma porrada nas costas à guisa de abraço. Era dezembro de 59; véspera de Natal. Todos voavam até o limite da luz do dia. Aí veio o Lyrio, passou o avião pro Mossry; e eu perguntei pro Lyrio: Como está o avião? Tá uma merda, puxando pra esquerda. E você deixou o Mossry voar? Quando o 57-16 voltou eu perguntei: Mossry, como está o avião? Tá uma merda; puxando pra esquerda. Então vamos falar com o Sargento, porque eu não vou voar solo nessa po##@, de jeito nenhum! Calma Bené! Te amarra aí que eu vou chamar o Sargento. Saiu, eu me amarrei e pensei: para os caras não perceberem que eu estou com medo (e como estava!) eu vou taxiar, de mansinho, até a cabeceira da pista. Fui; quando cheguei lá a fdp da torre me deu luz verde. Era a pista 17, a cavernosa, por causa dos fios de alta tensão na beira da estrada e o trem do Focker passava a um palmo deles. Eu pensei (meu mal é pensar): vou deslizando na pista, quando chegar no meio corto o motor e digo que o avião está puxando para a esquerda... Já tinha até duas testemunhas. Na pista de cimento o avião deu uma porrada num ressalto, o vento ajudou e ele subiu... antes que pudesse cortar o motor. E fiquei no alto, com os malditos fios crescendo na minha frente. Apavorei; dei motor e passei raspando. Bem, finalmente estava voando solo. Agora tinha que cumprir duas horas de vôo, fazendo pousos e decolagens; depois aquelas manobras malucas: parafuso, oito sobre estrada, estol com e sem motor. Eu disse pra mim mesmo: po##@, pousar eu não vou! O avião continuava puxando pra esquerda. Era tudo por causa de um pu?? vento; eu não percebia a causa nem sabia o que fazer, mas o instinto me dizia pra compensar com o pé. Fui então lá pra perto de Petrópolis e resolvi fazer o mais fácil - estol com motor. Levantei o nariz do avião e pensei (meu mal): não vou estolar é merda nenhuma. E fiquei uma hora passeando por lá. Aí lembrei que tinha que pousar. Fiz a aproximação direito, mas o avião estava torto; tentei endireitar mas não conseguia e ele foi descendo, quicando, batendo de lado e eu rezando e dizendo: agora é que eu não decolo mais com essa po##@. Levei o T-21 até a lateral da pista e vi o Donófrio de macacão no banheiro da barraca.Gritei da cabine: Donófrio, você viu que pouso fdp o meu? Foi ótimo, você quer pousar melhor que isso, com esse vento? Pô, Donófrio, eu quase bati com a asa! Olha, Bené eu já estou fazendo manobras e não consigo pousar assim. É bom você decolar senão vai ser pior... Pior!!! E eu fiquei naquele pousa-decola, pousa-decola, com um medo desgraçado até o sol se pôr. Isso tudo aconteceu no dia seguinte ao terrível acidente no qual o Silva Pereira chocou-se com um Viscount. E assim me tornei Intendente, graças a Deus.

57-159, Bernardini

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NOTÍCIAS DA COMISSÃO

A Comissão de Festa, a famosa e operosa CdeF, reuniu-se extra-ordinariamente no dia 29 de janeiro para acertar detalhes. Eis os detalhes:

# Com menos de uma dúzia de cervejas ingeridas a CdeF não delibera nada. Esse é o primeiro detalhe.

# No dia 8, a Alvorada festiva será às 7:30 hs e o "ônibus da alegria" sairá do Hotel às 8:30 hs rumo à EPCAr. Quem perder o horário vai ter que encarar as ladeiras. Não haverá maca para transportar dorminhocos nem beberrões.

# O traje do Paradão está confirmado: com pa-le-tó (a gravata é opcional, porém recomendada). As calças têm que ser social; jeans será considerado transgressão da disciplina. Serão terminantemente proibidos chinelos de dedo e sandálias.

# Para o churrasco, na tarde do dia 8, no Cassino dos Oficiais (antiga praça de esportes), a CdeF liberou geral. Será permitido até alegoria de mão.

# ATENÇÃO! ATENÇÃO! A saída dos ônibus do DARJ para BQ será britanicamente às 14 horas.

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BELA ESTRÉIA

No dia da nossa chegada a BQ, eu me lembro bem, nós desem-barcamos do trem e entramos em forma na rua da Estação. O Bené vinha marchando, ou melhor, andando atrás de mim. Ele usava um bruta bigodão. Na entrada da EPCAr um cara olhou pro Bené e disse:
- Pai aqui não entra. A Escola é só para alunos! Se manda!

57-71, Scupira

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ANIVERSARIANTES

Parabéns para a turma que nasceu em MARÇO.

Dia 2 Freitas, 57-29.

Dia 4 Waldomiro, 58-278.

Dia 6 Pantoja, 57-07.

Dia 9 Fleury, 60-127.

Dia 11 Oldack, 57-121.

Dia 13 Meira, 57-129.

Dia 14 Pena, 57-167.

Dia 16 José Maria, 56-39.

Dia 17 Moreira, 56-45.

Dia 17 Maurício, 57-103.

Dia 17 Luiz da Silva, 57-106.

Dia 18 Cubas, 58-258.

Dia 18 Dalmo, 56-32.

Dia 20 Cardoso, 57-136.

Dia 28 Ungaretti, 57-98.

Dia 30 Brival, 59-334.

Dia 30 Salatiel, l58-287.

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O TEOREMA

Antes de ser matriculado na EPCAR eu já era bicho. Explico. Jovem vibrador, sonhando com as alturas da propaganda veiculada pela Força Aérea: "A partir deste momento você começa a subir!" (lembram-se?), tendo passado no concurso, saí de Porto Alegre em uma manhã de fevereiro de 1997, em um DC-3 desconfortável que veio pingando, só chegando ao Rio no início da noite. Na turma estavam o Magrinelli, Ungareti, Travassos e outros. Éramos briosos candidatos a uma vaga em BQ, dependendo ainda do resultado dos exames médicos.

Ao chegar nos Afonsos, surpresa desagradável: fomos recebidos com palavras carinhosas como animal e bicho, seguidas de adjetivos qualificativos como nojento, imbecil, fdp etc. Apesar da Escola de Aeronáutica estar quase vazia, por ser férias, ali moravam muitos laranjeiras. Existiam outros candidatos de fora do Rio, o que diluía a carga de trotes, mas sofríamos muito. Sugatória todos os dias. Era um stress só. Não tínhamos para onde ir. Vivíamos escondidos. Alguns candidatos eram valetes de alguém, o que dava certa proteção, principalmente se o cadete era do 3º ano, mas os obrigavam a coisas ridículas, como ir acordar o amo e senhor com delicadeza batendo com a colher no copo cheio de café, recitando o santo do dia e a previsão do tempo, já com a escova de dentes e pincel de barba abastecidos. Acabei sendo bicho três vezes nos meus três anos de EPCAr: Nos Afonsos em fevereiro como candidato, no 1º ano em Barbacena e no 3º ano da Escola, que era nos Afonsos.

Um dia, em que meu amo e senhor não estava, um seu colega me chamou no alojamento e disse que eu deveria decorar o "Teorema que não se pode escrever". Era uma tradição oral, e somente deveria ser transmitido à posteridade oralmente. Confiscou-me os cigarros (Continental sem filtro, que era o de melhor qualidade que eu podia comprar na época) e meus fósforos (marca Olho). Disse que iria recitar todo o tal teorema e que, no final, eu deveria repetir tudinho. Toda a vez que eu errasse pagaria cangurus e flexões e ele repetiria desde o início para nova tentativa (de muitas). E começou:

Teorema da Geometria Espacial Fusiforme em Zig-Zag:

"Alternando-se momentaneamente os alhures da equipolência, nada podemos concluir do egerismo de um mentecapto donde o positivismo é óbvio.

Corolário:

Mais vale um homem todavia nunca do que um outro jamais sem comparação talvez.

Demonstração:

Isto (mostrando a caixa de fósforo fechada), que o vulgo chama de caixa de fósforo, na realidade é uma máquina simples, e como toda máquina simples se divide em três partes: a primeira, a segunda e a terceira. A primeira é o receptáculo do receptângulo quase quadranguloidal do lastro propriamente dito. A Segunda (abrindo a caixa e tirando a gaveta) é o receptângulo quase quadranguloidal do lastro propriamente dito. É quase quadranguloidal porque lhe falta o rebordo superior. A terceira (tirando um palito) é o lastro propriamente dito que, por sua vez, é uma máquina simples, e como toda máquina simples se divide em três partes: a primeira, a segunda e a terceira. A primeira (apontando o pé do palito) é a base ou fuste. A segunda (mostrando a madeira) é o corpo do lastro propriamente dito e a terceira (mostrando a cabeça do fósforo) é o calotóide plumbático. Atritando-se o calotóide plumbático do lastro propriamente dito num dos rebordos laterais do receptáculo do receptângulo quase quadranguloidal do lastro propriamente dito (e simulava acender o fósforo) vamos obter uma flama, que serve para combustir o fumímetro cilindroleidal nicotinoso (pegando um cigarro) que, por sua vez, é uma máquina simples, e como toda a máquina simples se divide em três partes: a primeira, a segunda e a terceira. A primeira (mostrando o fumo) é o conteúdo nicotínico, a segunda (apontando o papel) é o rebordo de segurança e a terceira (mostrando a marca) é o escudete de identificação. (Nesse ponto o cadete acendeu um ex-meu Continental com um ex-meu fósforo, deu uma gostosa tragada, embolsou meu maço de Continental quase cheio assim como a minha caixa de fósforo, e declarou pomposamente): Quod erat demonstrandum!

Enquanto ele falava eu pagava dez flexões toda a vez em que ria das baboseiras. Tinha também de repetir tudo, palavra por palavra. Ele tinha saco e começava sempre do início a cada vez que eu errava, como tinha combinado. Depois de muitos cangurus e flexões, quer por rir ou por não repetir direitinho palavra por palavra, eu aprendi para sempre. De vez em quando, quando me via, ele tomava a lição. Método eficiente de aprendizagem!... Passados quarenta anos lembro-me de todas as palavras e todos os gestos!

57-18,.Brasil

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CORRESPONDÊNCIA

De Campinas:

"Por motivos de viagem não estarei presente às solenidades dos 40 anos de nossa chegada à EPCAr (...). Eu não sei como foi a vida de cada um de vocês; ou como vocês aproveitaram o tempo. Posso garantir-lhes que Deus nos criou para sermos felizes e não existe nada contra nós nos reunirmos para festejar, comemorar, cantar, dançar, pois, Deus se apraz em ver seus filhos alegres e contentes."

57-144, Bruno.

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FRASE DO MÊS

"Antes de ir para BQ eu jogava basquete pelo Flamengo...."

56-86, Zé Nelson.

(Sem comentários...)



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