O CON*DORANO II - NÚMERO 5 - ABRIL DE 1997
BOLETIM INFORMATIVO DA TURMA 57-BQ/ASPIRANTES 62
Sem dúvida alguma, foi maravilhoso. Cada um de nós havia criado uma expectativa, na qual se esperava muito, do reencontro dos 40 anos. Contudo, não se esperava tanto. E o primeiro "choque de passado" começou já na reunião no DARJ. Colegas que não víamos há muitos anos surgiam em grupos sucessivos, ora nos confundindo, ora nos divertindo. Alguns, bem mais gordinhos; outros, um pouco mais calvos. E, outros mais, já bem grisalhos. Muitos ainda conservando alguns traços da juventude, enquanto outros haviam mudado tanto que tivemos dificuldades em reconhecê-los. Uma unanimidade: o Raposo, 57-22, com seus cabelos totalmente negros, parecia o mesmo garotão do final da década de 50.
O "papo", que rolou descontraído e brincalhão enquanto aguardávamos a hora da saída do ônibus, era um prenúncio do que nos aguardava. Quando os ônibus partiram e, algumas horas depois, chegaram ao hotel, fomos encontrar, finalmente, os demais participantes. Alguns lá já estavam e outros chegaram posteriormente. Após um bom tempo de confraternização em que íamos renovando a carga de adrenalina, à medida em que as emoções se sucediam, fomos, aos poucos, nos retirando para tomar banho e trocar de roupa.
Retornamos, mais tarde, para um gostoso drink e, também, para participar das homenagens aos nossos antigos mestres: Fernando Victor, Savassi, Quincas e Alevato, falecido, representado pelo seu filho, também professor da Escola. Foi um momento de muita emoção e, talvez por isso mesmo, extrapolei na bebida. E era, justamente para o dia seguinte, que os grandes momentos estavam reservados.
Quando os ônibus saíram, logo após o café da manhã, e chegamos à Escola, fomos diretamente para o novo auditório, bem maior do que o que conhecíamos. Lá, o atual Comandante nos recebeu e nos fez uma detalhada explanação de como funciona a nova EPCAr. Posteriormente ocorreram os pronunciamentos do Gomes e do Horta. Além da homenagem que eles prestavam ao "Capitão Dário", nós o presenteamos com um belo quadro. Ele, muito emocionado, nos agradeceu num discurso de improviso, também carregado de emoção. Ao sairmos do auditório, muitas fotos e filmagens. Em seguida dirigimo-nos à Capela, para a tradicional missa. Daí fomos para o Pátio da Bandeira, onde iria acontecer o "Paradão". E foi naquele momento, sem nenhum treinamento, que a nossa Turma justificou sua autodenominção: "Uma Turma Quase Perfeita!" Quando terminamos o desfile as opiniões das esposas, que estavam no palanque, foram unânimes. Acho que até o bom Capitão deve ter-se surpreendido conosco. A seguir, participamos da cerimônia de inauguração da Placa dos 40 Anos, saudada pelo Pessoa de Mello num discurso comovente. Logo após dirigimo-nos à Sala do Comando, para uma visitinha rápida. Antes do encerramento da visita ainda tivemos a oportunidade de assinar o Livro de Presença. A seguir fomos posar para fotos na frente da Escola, conforme previsto na programação. Começamos por aquela, que lembrava uma outra, que tiramos no final de 1958 na despedida de Barbacena. Na segunda foto, com os mesmos integrantes, adotamos uma formação diferente, em fileiras, com uns agachados e outros de pé. Houve ainda uma terceira foto, não tão importante como as duas primeiras mas, certamente, de um significado muito especial para os 18 participantes do grupo, que outrora faziam parte da Turma A do 1º Ano de 57.
Chegou, então, o momento em que presenciamos algo inusitado, quando visitamos os alojamentos dos atuais alunos, o que nos emocionou muito. Foi algo indescritível o que se viu estampado na face daqueles garotos, ao mesmo tempo perplexos e extasiados com tanta gente - homens e mulheres - invadindo o alojamento deles, puxando conversa e querendo saber de coisas tais como: se a EPCAr era o grande sonho de suas vidas; se estavam gostando do regime de internato; ou, simplesmente buscávamos nossos pares de mesmo número, procurando nos ver num deles. A euforia era maior quando os interlocutores eram oficiais generais. Na cabeça dos rapazes era como se os deuses tivessem baixado do Olimpo para conversar com eles, simples mortais. Alguns não se continham e pediam permissão para tirar fotos ao lado deles. Foram cenas verdadeiramente comoventes.
Após a volta ao hotel tomamos um banho, pois o calor era forte e havíamos suado bastante. Fomos, então, ao Cassino dos Oficiais para o tão aguardado churrasco. E daí por diante tivemos todo o tempo disponível para batermos papos intermináveis até que chegasse a hora da saída do último ônibus para o hotel.
Fechando com chave de ouro aquele dia inesquecível, consegui participar de dois acontecimentos que me deliciaram. Um foi a apresentação de nosso Cardoso com o seu violão. Mais uma vez foi aquele banho de interpretação e, devido ao ambiente muito tranquilo, gostei demais. Com um pouco mais de uma hora de apresentação houve um intervalo, que aproveitamos para ir ao bar beber alguma coisa. Lá chegando encontrei o Mossry, com quem comecei uma conversa tão agradável que não tive coragem de interompê-la para assistir ao restante do show. Mais tarde, por volta da meia-noite, o Cardoso retornou e iniciou aquela gostosa sessão de piadas. Como o Cabral - aquele que era o Presidente da JEC - estivessa presente, houve um duelo espetacular entre os dois que só se encerrou pelas duas da madrugada. O vitorioso, para minha surpresa, foi o Cabral.
Uma grata constatação: até onde de para ver, tornamo-nos mais humanos e, quando se é mais humano se é, também, mais condescendente e generoso. Releva-se algum mal que nos tenham feito, bem como valoriza-se tudo de bom que nos proporcionaram. Assim, tive a oportunidade de conhecer melhor, através daquela intimidade gostosa que rolou entre nós, sem maiores preocupações, alguns colegas que naquela época só conheci superficialmente.
Em nome de tudo o que foi dito, pretendo conclamá-los para reduzirmos a periodicidade de novos eventos, com alternância de sedes - entre Barbacena e Rio - a cada dois anos. Chamo a atenção de vocês para o que ocorreu há dez anos atrás quando, alguns meses após o reencontro na Escola de Aeronáutica, acabaram nossas reuniões mensais devido ao seu esvaziamento por falta de uma perspectiva de curto prazo. Não podemos cair novamente no mesmo erro! Poderia ser fatal a nossa pretensão de realizar um encontro daqui a dez anos. Acredito que só mediante a política de encontros bianuais vamos poder viabilizar as nossas reuniões mensais e, por meio delas, chegar ao reencontro dos 50 anos. Desde já, coloco-me à disposição da atual Comissão, que aliás está de parabéns por aquela organização magnífica, para ajudar no que for possível. Espero que outros mais, principalmente os que moram no Rio, também façam o mesmo.
57-13 Nunes
Todos os vídeos foram remetidos. O Amorim solicita aos companheiros que confirmem o recebimento. Os residentes no Rio e em Brasília estão dispensados.
Nos primórdios de 1957, na triste condição de bicho, numa nostálgica tarde de quarta-feira, fui convidado pelo então veterano JOSÉ NELSON MONTEIRO VIEIRA a adquirir um número - o único - da rifa de uma pulseira vibradora que ele usava, por sinal muito bonita. Era de prata e com um trabalho artesanal de primeiríssima, onde um par de asas de prata demonstravam que o usuário era um grande vibrador pela Aeronáutica. Não era como as pulseirinhas vibradoras que se encontravam no mercado, aquelas de lata comum que a maior parte de nós usava. Não. Era bem diferente. E única, por se tratar de peça artesanal. Eu cobiçava ardentemente aquela pulseira. A proposta da compra da rifa, embora fosse mais um trote, talvez pudesse me proporcionar a esperança de possuí-la. Diante disso ponderei, perguntando qual era o número da rifa, quando correria, qual seria o comprovante de que eu adquirira o número da rifa etc., etc. Diante de tal banca, e como precisasse de grana para alguma incursão naquele bairro logo abaixo da Vila dos Oficiais, o Zé Nelson escreveu num pedaço de papel: NÚMERO 26. CORRE PELA LOTERIA ESTADUAL DE SÁBADO. VALE A CENTENA. E assinou com um garrancho. Por uma dessas coincidências da vida, no tal sábado deu o tal número! No domingo, bem cedo, fui correndo até a cama do Zé Nelson com o exemplar do Jornal de Barbacena nas mãos, onde aparecia o resultado da Loteria Estadual com a gloriosa dezena de milhar na cabeça! Discute de lá, discute de cá, graças à interferência de outros veteranos como o "Coveiro", o Noronha e o "simpático" Hailê, o Zé Nelson não teve outra saída, entregou-me a pulseira. Que alegria! No licenciamento seguinte fui eu para Sampa, baratéia alugada e de pulseira no punho. Frequentemente flagrava-me com a mão direita segurando o queixo para aparecer a pulseira. Até uma foto assim eu tirei. Dormia com a pulseira, tomava banho com a pulseira, enfim, não tirei a pulseira do pulso um instante sequer.
Quando retornei a Barbacena, após uns dois fins de semana, o Zé Nelson procurou-me e disse que iria visitar a sua mãe; que fora ela quem mandara confeccionar a pulseira, e portanto não poderia aparecer em casa sem ela, pois não poderia explicar a falta. No entanto, na segunda-feira seguinte, me devolveria. Na tal segunda-feira, às 5h45min, portanto ao soar da alvorada, lá estava eu, de pé, ao lado da cama do Zé Nelson. Para minha grande frustração, na maior cara de pau, ele disse que havia esquecido a pulseira na casa de sua mãe. Daí pra frente ouvi as mais variadas desculpas e nunca mais vi aquela pulseira. O tempo passou, fomos para os Afonsos, a preocupação com o vôo e tantos outros afazeres fizeram com que eu acabasse me esquecendo da pulseira.
Quando da reunião do fim de ano de 1996, estava eu procurando fotos que fossem interessantes levar, quando me deparei com aquela foto segurando o queixo e mostrando a pulseira que estava esquecida desde os idos de 1957. Não levei essa foto para a reunião, até porque era uma lembrança minha que não tinha muito a dizer aos demais companheiros. Mas encontrando o Zé Nelson, disse-lhe: "Esta semana lembrei-me de você. Encontrei uma foto usando aquela pulseira de prata que eu ganhei na rifa e você levou embora, lembra-se?" Com algum esforço, e com muito bom humor, recompusemos a história, cada um lembrando a sua participação. Demos boas risadas, assim como nossas esposas que assistiram a reconstituição do "crime".
Na chegada em Barbacena, no dia 7 de março de 1997, ao entrar no quarto que me foi destinado, encontrei sobre a cama o boné, a camiseta, a caneca e um pacotinho comprido que, obviamente, foi o primeiro que abri. Ao abri-lo, constatei que era uma pulseira vibradora; logicamente não era aquela, mas um "clone". No verso havia uma dedicatória: Sucupira, uma dívida de 40 anos paga com amizade - Zé Nelson - BQ, 7-3-97 Junto, ainda, um bilhete que foi o fecho para soltar uma enorme emoção. Chorei! Chorei de felicidade ao ver a amizade que nos une. Ficamos muitos anos sem nos vermos e, ao nos reencontrarmos, parece que foi ontem. A mesma camaradagem, a mesma lealdade, enfim, todo o afeto real que, infelizmente, não se encontra no mundo "de fora". A carreira militar pode não ser a melhor forma para se realizar, mas a amizade, a união e o amor que nos une é único e justifica todo o sacrifício que fizemos para pertencer a essa confraria. Ninguém entendo como é possível, depois de quarenta anos, que um grupo de senhores de certa idade se reencontre e forme um pelotão cuja performance dificilmente se encontra nos pelotões de jovens de hoje em dia. Foi uma época de ouro na qual tivemos o privilégio de viver.
Quem viveu, viveu; quem não viveu... lamento!
57-71 Sucupira
Quem não se recorda daquele glorioso momento de confraternização, na chegada da caravana, ainda na recepção do Hotel Grogotó, em Barbacena? Para facilitar, os crachás foram colocados pelos organizadores da festa sobre o balcão, no hall de entrada. Ao retirar o meu, peguei também o do Bené, que estava na rampa de entrada em meio a carinhosos cumprimentos. A alegria era grande; todos se abraçavam emocionados, pois alguns não se viam há quarenta anos. Nesse caso estávamos eu e o Palmero, que não nos víamos desde a época da Escola. Para mim, porém, aquela fisionomia inconfundível não havia mudado. Parti para o abraço usando o crachá do Bené. "- Como vai, Palmero?" Ele baixou os olhos, mirou o crachá que eu estava usando, abraçou-me, e disse emocionado:"- Como vai você, Bené?" O abraço foi longo, foi saudoso, foi sincero. Fiquei com remorso pela brincadeira. Mostrei então meu crachá verdadeiro e esclareci:"- Palmero, eu sou o Horta!" Ele tornou a me abraçar e disse: "- Como está você, Horta?" E ainda mais emocionado: "- Olhe, Horta. Hoje tudo o que me disserem eu acredito!"
Foi tão significativa a mensagem do 57-170, Pessoa de Mello, publicada na Edição Especial de O CON*DOR (número 3 de março de 1997), que a CdeF dos 40 anos convidou o seu autor a ler o seu texto no momento da inauguração da placa comemorativa. Finalizando sua fala, o Pessoa de Mello, com sua conhecida eloquência, acrescentou:
"Hoje temos a responsabilidade de ter olhos e lucidez, quando muitos a perderam. Resgatamos o afeto, mesmo face à pressão dos tempos. Uma coisa que tem nome é o que somos: bequeanos 57! Quem sabe olhar vê, quem sabe ver repara."
Recebam parabéns da Turma inteira
ATENÇÃO! ATENÇÃO!
A VIBRADORA
QUALQUER SEMELHANÇA
PASSEI POR AÍ
...ainda ecoando...
ANIVERSARIANTES DE MAIO
03 - Francalacci, 57-153
05 - Gasparello, 57-138
08 - Eny Guedes, 59-354
09 - Pacheco, 59-332
16 - Eliseu, 57-105
19 - Gonçalves, 57-94
20 - Liz Ribeiro, 57-151 e Zilson, Cad. 60-110
23 - Calvino, 57-113
25 - Furtado, 57-23, Clever Afonso, 57-96 e José Carlos, 58-268
27 - Almir BL, 57-87 e Porto, 57-101
28 - Vasques, 57-36
Você está lendo O CON*DOR de abril de 1997.
